Dag Hammarskjöld

Dag Hammarskjöld (1905 – 1961) foi diplomata e poeta sueco. Tornou-se secretário-geral da ONU, posição em que veio a morrer em um acidente aéreo na África central e agraciado postumamente com o prêmio Nobel da Paz. Após sua morte encontraram uma coletânea de poemas, a maior parte haikai, entitulado Vägmärken – marcas do caminho, ainda sem publicação no português.

Vägen,                                    O caminho,
du skall följa den                 deves seguí-lo.
Lyckan,                                 A felicidade,
du skall glömma den.        deves esquecê-la.
Kalken,                                  O cálice,
du skall tömma den.          deves tomá-lo.
Smärtan,                               A dor,
du skall dölja den.              deves ocultá-lo.
Svaret,                                   A resposta,
du skall lära det.                 deves aprendê-la.
Slutet,                                    O final,
du skall bära det.               deves suportá-lo.

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Thomas Hobbes: religião e governo por consentimento

Thomas Hobbes (1588-1679) filósofo inglês. Expoente da teoria do contrato social.

Hobbes nasceu prematuramente quando sua mãe ouviu que a Invencível Armada estaria invadindo a Inglaterra. Seu pai era um ministro anglicano que ocupava-se em jogatinas até desaparecer após brigar com outro clérigo no quintal de sua igreja. Pobre, Hobbes foi educado por um tio que o enviou a Oxford. Hobbes se tornou tutor privado de um aristocrata depois de sua graduação, viajando pela Europa com seu influente pupilo e frequentando as antessalas do poder. Por um tempo, Hobbes ensinou matemática ao jovem futuro rei Charles II e foi secretário de Francis Bacon.

Em uma época turbulenta de concorrência entre o parlamento e o poder absolutista real, fermentado por disputas religiosas entre os puritanos, católicos e episcopalianos na Igreja da Inglaterra, Hobbes alinhou-se com o lado perdedor: os realistas.  Exilado na Europa continental, Hobbes encontrou-se com outros pensadores da época e começou a publicar seus escritos. Teve uma cordial relação com  Descartes, com quem se encontrou em 1648,  mas não diviam muito pensamentos: Hobbes achava que Descartes deveria focar à matemática e não à filosofia.

Ainda no Continente Hobbes encontrou-se com Galileo em 1634.  Esse encontro deixou influência em Hobbes em seu anti-aristotelismo, mecanicismo e empiricismo que deveriam ser aplicados em sua filosofia, principalmente em seu pensamento político. Todavia, Hobbes desdenhou o experimentalismo de Galileo, Francis Bacon e da Royal Society

Ocupado com a filosofia da mente e linguagem, Hobbes era um nominalista na questão dos universais e buscar definições precisas era crucial para ele, tanto que algumas partes de seus escritos assemelham a dicionários. Também Hobbes era um materialista, crendo que toda moção seria causada por algum corpo. Razão era mera computação e não algo metafisico, a imaginação era mera iteração de fadante memória. Até  Deus teria um corpo tangível, valendo suspeitas de heresias e ateísmo – ateísmo então não significava negar a existência de Deus, mas rejeitar os atributos do Deus da ortodoxia.

Hobbes aceitava a autoridade bíblica baseado em sua revelação direta e milagres, mas como milagres cessaram, restava somente a interpretação dos textos com autoritativos. Hobbes, protestante, rejeitava a legitimidade de uma única autoridade como intérprete oficial da vontade divina. A falta de autoridade requeria a existência da intervenção do estado sobre a religião e impossibilidade de usar a Bíblia como lei.

Hobbes também rejeitou causas sobrenaturais para fenômenos naturais, qualquer ação teria origem em algum movimento corporal na realidade empírica. A ignorância das causas levava a superstição religiosa. As massas londrinas não deram muito crédito a Hobbes quando a cidade ardeu em chamas em 1666 e culpavam a ira divina,  consequentemente os escritos de Hobbes acabaram queimados em sua própria faculdade em Oxford.

Politicamente Hobbes distingue entre a pessoa e o ofício. Enquanto teóricos anteriores, como Macchiavelli, discutia as virtudes e deveres dos príncipes – que governavam pelo mero fato de sua pessoa ser o príncipe, como no dizer de Louis XIV “o estado sou eu” – Hobbes desafiou tal conceito dizendo que o príncipe poderia ser legitimamente trocado. Entre as obrigações do soberano Hobbes antecipa o estado bem estar social, dizendo que os indigentes não deveriam viver de esmolas, mas serem amparados pelo estado. Imposto sobre consumo visando nivelamento entre ricos e pobres. Hobbes distingue entre boas e más leis e ao invés de considerar lei como comando, arguia pelo positivismo legal, a lei é o que o soberano diz ser lei.

O primeiro trabalho publicado de Hobbes fora uma tradução de Tucídites e os seus últimos as traduções de Homero. Seus escritos filosóficos são sistemáticos e em uma trilogia – De Cive (1642), De Corpore (1655), De Homine (1658)– Hobbes se ocupou do homem como ser biológico, psicológico ou filosofia moral como se dizia na época, e social.  Sua obra máxima foi o Leviatã, dedicada ao exame politico, social e religioso, foi publicada em 1651 logo depois de acabar a Guerra Civil Inglesa.

O Leviatã se tornaria sua obra mais influencial. Seu título completo era O Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um estado Eclesiástico e Civil e inspirou-se em um mostro descrito no Livro de Jó. O frontispício da primeira edição sumariza bem seu conteúdo. Um gigante composto por pessoas, com uma cabeça coroada segurando a espada e um báculo episcopal.  Um dístico latino de Jó 41:24 “Não há poder sobre a Terra que possa comparar com ele”. Somente a face do gigante é visível. Um paralelo de figuras estão nas margens inferiores: castelo/igreja, coroa/mitra, canhão/excomunhão, armas/lógica, campo de batalha/tribunal eclesiástico.  O livro divide-se em quatro partes: Sobre o Homem, Sobre a Comunidade, Sobre a Comunidade Cristã, Sobre o Reino das Trevas. Há capítulos que variam de tamanhos e de gênero, desde postulados e definições até argumentos teológicos.

Hobbes via o ser humano dotado de apetites, o que antecede  teorias da economia clássica, utilitarianismo, psicanálise e escolha racional. Todos são igualmente dotados de poder para satisfazer esses apetites – igualitarismo que divergia da concepção hierárquia da sociedade da época, onde subalternos naturalmente teriam menos poder. Porém Hobbes não é nenhum otimista quanto a natureza humana. Em sua ordem natural o ser humano é mal e na busca de satisfazer seus apetites moveria uma guerra de todos contra todos – bellum omnium contra omnes.

A resposta a esse conflito generalizado seria um contrato social. Os indivíduos renuniciariam seus direitos a um soberano, embora houvesse direitos inalienáveis. Ao apresentar a legitimação do poder do estado como proviniente da renúncia de seus constituíntes, Hobbes rejeitou a doutrina do direito divino do soberanos como apresentada por Jean Bodin e esposada na Inglaterra por Robert Filmer em seu Patriarcha or the Natural Power of Kings Defended Against the Unnatural Liberty of People  (1680). Todavia, a noção de soberania de Hobbes não era necessariamente um rei. Ao invés de jurar fidelidade a uma pessoa específica, como os realistas seguidores de Charles I, mas ao soberano capaz de mediar a paz e garantir o commonwealth – a comunidade política voltado para um bem comum. O soberano teria que ser absoluto, sem dever prestar contar ou limite de poder, mas não necessariamente um rei, o parlamento poderia ocupar esta função. As críticas atuais a Hobbes seriam não estabelecer meios de prestação de contas, não prever abusos de poder ou incluir o povo como soberano.

O cartunista Bill Waterson nomeou o tigre de pelúcia Hobbes do menino Calvin baseado no filósofo. O tigre, como o pensador, possuem um pessismo quanto a moralidade humana, são apegados a uma razão empírica e menos abstrata.

Um Hobbes pouco comentado: religião e o poder eclesiástico

Hobbes é lido e comentado como filósofo político e social, mas foi um pensador religioso de mérito.  Interessante notar que o absolutista Hobbes defende atitudes mais democráticas na Igreja que no Estado. Maior parte do Leviatã foi dedicada a assuntos religiosos e visava limitar o poder das facções religiosas na esfera política inglesa, argumetando o poder do estado sobre a religião. Sem ocupar-se sobre sua teologia um tanto heterodoxa, seus pontos sobre a organização da Igreja são interessantes, como a razão da corrupção de instituições religiosas, a eleição dos ministros religiosos, a jurisdição da Igreja somente sobre seus fieis e a oferta voluntária invés de impostos eclesiásticos ou dízimos.

Traduzi alguns excertos do Leviatã sobre esses temas.

Sobre a revelação sobrenatural para guiar as relações humanas

Quando Deus fala ao homem, deve ser imediato ou pela mediação de um outro homem a quem Ele havia falado anteriormente. Como Deus fala com um homem (…) é difícil, senão impossível de saber. Porque, se um homem fingir para mim que Deus lhe falou direto sobrenaturalmente, e eu duvidar, eu não posso facilmente aceitar qualquer argumento que ele possa fazer para obrigar-me a acreditar nisso. Leviatã, parte 2, capítulo 32.

O povo retém o direito de interpretar as Escrituras

Quando alguma dificuldade surgiu, os Apóstolos e os anciãos da Igreja, reunia e determinava o que deveria ser pregado e ensinado, e como eles deveriam interpretar as Escrituras ao povo, mas não tirava das pessoas a liberdade de ler e interpretá-los por si mesmos. Os Apóstolos enviaram diversas cartas às Igrejas e outros escritos para sua instrução; que teriam sido em vão se não tivessem permitido a liberdade de interpretar, ou seja, considerar o significado delas. E como era no tempo dos Apóstolos, isso deve ser até agora em que há pastores que possam autorizar  intérpretes cuja interpretação  possa ser entendida, mas isso não pode continuar até os reis se tornaram pastores, pastores reis. Leviatã, parte 3, capítulo 42

Os ministros religiosos tem autoridade somente para pregar e não para governar

Cristo enviou os seus Apóstolos e os seus setenta discípulos com autoridade para pregar, ele não enviou aos que criam. E mandou-os para os incrédulos: “eu vos envio”, diz ele, “como ovelhas entre lobos”(Mateus, 10:16);  não como ovelhas para outras ovelhas.

Por último, os pontos de sua comissão, uma vez que estão expressamente estabelecidas no evangelho, contêm nenhum deles qualquer autoridade sobre a congregação.

Primeiro temos que os doze apóstolos foram enviados “às ovelhas perdidas da casa de Israel”, e ordenou a pregar “que o reino de Deus estava próximo.” (Mateus 10:6-7) Agora pregação, no original é aquele ato que um pregoeiro, arauto, funcionário que  serve para fazer publicamente na proclamação de um rei. Mas um pregoeiro não tem direito de comandar qualquer homem. E setenta discípulos são enviados como “obreiros não como senhores da lavoura”; (Lucas 10:2) e são convidados a se dizer: “O reino de Deus é chegado a vós”;  e pelo reino aqui se entende, não o reino da graça, mas o reino da glória, porque são convidados para anunciar às cidades que não recebê-los como uma ameaça, que será mais tolerável naquele dia para Sodoma do que para tal cidade. E nosso Salvador diz a seus discípulos, que busquem prioridade de lugar, seu ofício era ministro, como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir.(Mateus 20:28) Pregadores, portanto, não magistrados, mas o poder ministerial: “Não vos chameis mestres, “diz o nosso Salvador”, porque um só é o vosso Mestre, Cristo “. Leviatã, parte 3, capítulo 42

Os ministros só tem poder persuasivo e o exercício da disciplina por excomunhão só tem jurisdição sobre os membros de uma igreja

Mais uma vez, o cargo de ministros de Cristo neste mundo é fazer com que os homens creiam e tenham fé em Cristo: mas a fé não tem relação, nem dependência alguma de compulsão ou mandamento, mas somente mediante a certeza, ou probabilidade de argumentos tirados da razão, ou de algo que os homens já creem. Portanto, os ministros de Cristo neste mundo não têm poder por esse título para punir alguém por não acreditar ou contradizer o que eles dizem: eles têm, eu digo, não poder por que o título de ministros de Cristo para punir tais, mas se eles têm poder civil soberano, por instituição política, então eles podem de fato legalmente punir qualquer contradição com as suas leis que seja: e São Paul, de si mesmo e de outros pregadores do Evangelho, diz em palavras expressas, “Nós não temos domínio sobre a vossa fé , mas porque somos cooperadores de vossa alegria “. (II Corintios 1:24)

(…)

Para que um homem seja sujeito a excomunhão de haver muitas condições necessárias; como o primeiro, que ser um membro de alguma comunidade, isto é de alguma assembleia legal, isto é de alguma igreja cristã que tenha poder de julgar a causa pela qual ele deve ser excomungado. Porque onde não há comunidade, não há como haver excomunhão, nem onde não há poder de julgar, não pode haver qualquer poder de dar a sentença.

A partir daqui segue que uma Igreja não pode ser excomungada por outra Igreja, porque ou elas têm igual poder de excomungar uns aos outros, em que a excomunhão caso não é disciplina, nem um ato de autoridade, mas cisma e dissolução de caridade; ou um é tão subordinado ao outro como que ambos têm, mas uma só voz, e então eles ser, mas uma Igreja, e a parte excomungada não é mais uma Igreja, mas um número dissoluto de pessoas.

(…)

Em suma, o poder da excomunhão não pode ser estendido além do que até o fim para o qual os apóstolos e pastores da Igreja têm a sua comissão de nosso Salvador, que não é a regra de comando e de coerção, mas pelo ensino e pela direção dos homens na caminho da salvação no mundo vindouro. Leviatã, parte 3, capítulo 42

Os ministros devem ser eleitos pela Igreja

Além destas posições magisteriais na Igreja, como apóstolos, bispos, anciãos, pastores e doutores cujo chamados fora para proclamar Cristo aos judeus e infiéis e guiar e ensinar aqueles que criam, não vemos no Novo Testamento nenhum outro [ofício]. Porque pelo nome evangelistas e profetas não significava ofício algum, mas vários dons que vários homens eram utéis à Igreja. (…) Pois nem esses dons, nem os dons de línguas, nem o dom de expulsar demônios, nem de curar outras doenças, nem qualquer outra coisa fez um oficial, salvo apenas pelo devido chamado e eleição para o cargo de ensino.

Como os apóstolos Matias, Paulo e Barnabé não foram feitos tais por nosso Salvador, mas foram eleitos pela Igreja, isto é, pela assembléia dos cristãos, ou seja, Matias pela igreja de Jerusalém, e Paulo e Barnabé pela igreja de Antioquia, assim também foram os presbíteros e pastores de outras cidades, eleito pelas igrejas dessas cidades. Para a prova do qual, vamos considerar, em primeiro lugar, como São Paulo procedeu a ordenação de presbíteros nas cidades onde ele havia se convertido homens à fé cristã, logo depois que ele e Barnabé haviam recebido seu apostolado. Lemos que “eles ordenavam anciãos em cada igreja” (Atos 14:23); que à primeira vista podem ser tomadas para um argumento de que eles próprios escolheram e deu-lhes a sua autoridade, mas se considerarmos o texto original é manifesto que eles foram autorizados e escolhida pela assembléia dos cristãos de cada cidade. As palavras existem cheirotonesantes autois presbuterous kat ekklesian, isto é, “quando os tinha ordenado anciãos por levantar as mãos em cada congregação.” Agora é  bem conhecido que em todas essas cidades a maneira de escolher os magistrados e oficiais era de pluralidade de sufrágios e porque a maneira comum de distinguir os votos favoráveis dos negativos eralevantando as mãos. para ordenar um oficial qualquer das cidades não era mais, mas para trazer o povo para eleger-los por pluralidade de votos. Seja pela pluralidade de mãos elevadas, ou por pluralidade de vozes, ou pluralidade de bolas, ou grão ou pedrinhas, dos quais cada homem lançava em um vaso marcado para o afirmativo ou negativo, pois diversas cidades tinham costumes diferentes no mesmo ponto. Foi, portanto, a assembléia que elegeu seus próprios anciãos: os apóstolos foram presidentes da assembleia apenas para chamá-los juntos para tal eleição, e pronunciar-los eleito, e dar-lhes a bênção, que agora é chamado de consagração. E por isso os que estavam presidentes das assembléias, como na ausência dos Apóstolos foram os anciãos, foram chamados proestotes e em latim antistites;  palavras que significam a pessoa principal da assembleia, cujo ofício era contar o número de votos, e a declarar, assim, quem foi eleito, e onde os votos eram empatado, decidir o assunto em questão, adicionando seu próprio voto de o ofício como um presidente de um conselho. E, porque todas as igrejas tinham os seus presbíteros ordenados da mesma maneira, onde a palavra é constituir, como ina katasteses kata polin presbuterous, “Por esta causa te deixei em Creta, para que constituisse anciãos em cada cidade”, (Tito 1:15) nós estão a entender a mesma coisa, ou seja, que ele deve chamar os fiéis juntos, e ordená-los presbíteros pela pluralidade dos sufrágios. Teria sido uma coisa estranha, se em uma cidade onde os homens talvez nunca tinha visto  magistrado escolhido de qualquer outra forma do que por uma assembleia, os da cidade, tornando-se cristãos, devem tanto quanto ter pensado em qualquer outra forma de eleição de seus mestres e guias, isto é, de seus presbíteros (também chamados bispos), do que este da pluralidade dos sufrágios, intimado por São Paulo na palavra cheirotonesantes.Atos 14:23. Nem havia outra  escolha de bispos, antes de os imperadores achou necessário para regular  em ordem à manutenção da paz entre eles, mas pelas assembléias dos cristãos em todas as cidades. Leviatã, parte 3, capítulo 42

De acordo com Hobbes o dízimo, taxa obrigatória de 10% das rendas, fora aplicável somente no perído da religião mosaica, quando havia uma casta sacerdotal que não podia ter outras rendas ou herdades.

Mas aqui alguns podem perguntar se o pastor é então obrigados a viver sobre contribuição voluntária, como esmolas…que os pastores da Igreja sejam mantidos por seus rebanhos; mas não que os pastores determinem a quantidade ou o tipo do seu próprio subsídio, e ser, por assim dizer, seus próprios determinantes. O subsídio deve ser determinados, portanto pela gratidão e liberalidade de cada pessoa em particular do seu rebanho ou por toda a congregação.

Até agora foi demonstrado quem os pastores da Igreja são, quais são os pontos de sua comissão, como que eles estavam a pregar, ensinar, batizar, ser presidentes em suas várias congregações, o que é censura eclesiástica, quem elege os pastores da Igreja (…), o que seria a sua devida renda de seus bens próprios e seu próprio trabalho, as contribuições voluntárias dos devotos e grato cristãos. Leviatã, parte 3, capítulo 42

Hobbes dedica a parte 4 de O Levitã sobre o Reino das Trevas e enumera quatro causas desta escuridão. A primeira é pela extinção da luz das Escrituras em seus erros de interpretação, a segunda é superstição em crença em demônios que levou a idolatria de relíquias, o terceiro era misturar as Escrituras com a filosofia pagã, especialmente a de Aristótoles – obscurantismo que levou a condenação de Galileo, quarto pela mistura com crenças obscuras. O Reino das Trevas existe porque há gente que se beneficia dele: ministros e igrejas corruptas.

Leia mais:

  • O Leviatã (em Inglês)
  • http://hobbestoday.blogspot.com/ blog em inglês sobre a aplicação contemporâneo do pensamento de Hobbes
  • Martinich, A.P. 2003. The two gods of Leviathan: Thomas Hobbes on religion and politics
  • Milner, B. 1988. Hobbes: On Religion
  • Sherlock, R.1982. The Theology of Leviathan: Hobbes on Religion

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Diferença entre relativismo cultural e relativismo moral

Julgamentos são baseados na experiência e experiência é interpretado por cada indivíduo nos termos de sua própria aculturação.  Melville Herskovits

É comum encontrar em discussões calorosas sobre a universalidade de valores morais apelações para cultura. O triste é pouco saberem diferenciar relativismo moral de relativismo cultural.

Relativismo cultural é antes um método de pesquisa. Antropologia é uma ciência de observação, mas não se examina seus sujeitos sob uma lupa, vive-se entre eles de modo que o antropólogo analisa uma cultura pelos seus próprios critérios. O problema de como julgar os “outros” é universal. Os gregos chamavam de barbaroi  todos que eles não entendiam.

Os primeiros jesuítas a encarar diversidade cultural submeteram línguas como o tupi antigo à gramática latina e reclamavam que para os tupi não havia “fé, sem lei, sem rei” – tanto por faltar os fonemas /f/, /l/ e /r/ – quanto a religião, normas legais e organização social indígena não era nada similar ao que os europeus conheciam. Atitude chamada etnocentrismo.

Autoridades coloniais e antropólogos do século XIX categorizavam o mundo em um esquema evolutivo em civilizados (eles mesmos), bárbaros (outras nações) e selvagem (gente que supostamente viviam como animais) por razões deterministas: ou era a raça ou o clima que afetavam o grau de civilidade.

Depois do estabelecimento da antropologia como ciência através de longas viagens de campo percebeu-se que não importava o quanto uma sociedade era dependente de tecnologias todos eram igualmente racionais, suas línguas completas para expressar qualquer ideia, moralidade existia em todos os grupos. Não seria possível uma cultura ser melhor que outra, ou escalável como mais ou menos “evoluída”. Etnocentrismo impede vislumbrar uma cultura ampla e profundamente.

Relativismo cultural permite descrever e avaliar elementos de uma cultura empregando conceitos inerentes a ela. Obviamente no estudo de culturas inclui-se categorias morais como “o bem” e “o mal”, mas não é a moral o objeto do relativismo cultural.

Relativismo cultural é antes um método de pesquisa

Deve ser creditado ao antropólogo teuto-americano Franz Boas o conceito de relativismo cultural.  Boas demonstrou o erro de atribuir razões do comportamento humano  por critérios de raça, cultura explicava diversidade. Uma discípula dele, Ruth Benedict tornou o conceito popular de uma forma aplicada. Benedict escreveu Patterns of Culture (1934) e mais tarde instruiría os soldados americanos a enfrentar a ideologia racialista do nazismo.

A popularização do conceito de relativismo cultural teve várias consequências, desde o movimento de direitos civis nos Estados Unidos até as contraculturas juvenis dos anos 1960 e 1970. Uma consequência é o relativismo moral apropriando leigamente dados antropológicos e a heurística de relativismo cultural para justificar niilismo moral.

Outro  antropólogo boasiano  Clyde Kluckhohn exemplifica relativismo moral  “se os Bugabugas fazem assim, porque não podemos nós?  É tudo relativo de qualquer jeito.”(1944) Kluckhohn continua, o que esquecem é o fato que os Bugabugas fazem assim porque é elemento integrado de sua cultura.  E os Bugabugas não fazem como nós porque o que fazemos causam horror a eles. Finalmente, se os Bugabugas fazem algo que consideram moralmente certos, não significa que minha sociedade hospedeira deve me aceitar se eu me comportar contra minha sociedade ao imitar os Bugabugas.

Matar é considerado moralmente errado, mas  se em sociedades ocidentais há aceitação de matar em autodefesa, guerra e alguns países como penalidade, em  sociedades como os Amish e os Lepcha essas exceções não são aceitáveis.   Causa horror entre os Amish e Lepcha tirar a vida humana ou usar de violência, mas não exclui a possibilidade de haver desviantes da norma entre essas sociedades.  Uma pessoa que mata outra na sociedade ocidental pode ser condenada como criminoso ou condecorada como herói enquanto receberia a ojeriza entre os Lepcha e Amish. Caso eu ver um Amish ou Lepcha ser covardemente atacados fisicamente e eu tiver meios de defendê-los  devo fazê-lo pois caso contrário seria omissão segundo as normas da minha cultura.

Poucas culturas vivem hoje em estrito isolamento.

Idealmente os desviantes deveriam ser julgados por seus pares, mas vivemos agora em um mundo pluralista que requer negociação de valores e normas. Poucas culturas vivem hoje em estrito isolamento. A emergência da condição pósmoderna, onde faltam referências de autoridade, aumenta ainda mais a insegurança coletiva.  Há pressas para tomar posições em tópicos controversos, mesmo quando faltam informações relevantes. Religiões com cosmovisões simples de entender e com código de condutas definidos florescem em áreas com anomia. Vivemos na sociedade do dilema.

Neste mundo diverso surgem políticas para acomodar as diferenças. Uns apregoam a assimilação da minoria ao comportamento da maioria enquanto outros clamam pela integração, preservação das diferenças como parte de um grande mecanismo. A política de uma  é a sopa e de outra é a salada de frutas.

Qualquer sociedade, mesmo de pequena escala e quase homogênea ou a grande urbe complexa de várias cores e sabores possuem valores e normas.  Simples ou pluralista ainda há em toda sociedade um contrato social. Cultura não é estática, muda e requer articulação e negociação para garantir sua continuidade. Por isso, a democracia é o melhor para as sociedades plurais: prevê liberdade de discussão e pensamento, as leis são feitas por processos parlamentares é há distribuição difusa de poder. É o sistema liberal defendido por Karl Popper, defensor de uma ética universal em meio a diversidade. Popper também veio com o paradoxo do intolerante. Deveríamos tolerar a intolerância? Tolerar a intolerância não é uma ameaça à própria intolerância? Popper disse que não.

O fracasso de ampla negociação nas primeiras décadas do século XX levou ao totalitarismo de sociedades antes liberais, como brilhantemente demonstrou Hannah Arendt (1951). A negociação e aplicação do relativismo cultural permitiram redigir a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a ser garantido não só para as maiorias do ocidente, mas um universalismo moral aplicados a todos.

Relativismo moral é negar validade de valores em ambientes pluralistas

O relativismo moral não é uma política (policy) sobre pluralidade cultural, é uma ideologia. Enquanto ideologia política relativismo moral nega a validade de valores objetivos em ambientes pluralistas, submetendo ao casuísmo, particularismo, fluidez de normas mudadas ao vento, circunstancialismo moral de grupos negando a negociação no espaço público.

Esta ideologia política popular de relativismo moral emprega argumentos rasos da antropologia (relativismo cultural) e da filosofia (relativismo ético) tratando-os superficialmente de maneira confusa.

Alguns antropólogos defendiam relativismo moral, mas em base na filosofia e não na antropologia, como o caso de Edvard Westermarck, que apregoava a inexistência de valores objetivos.  O escrutínio do relativismo moral pertencem à filosofia e ética, enquanto o relativismo cultural é um modo de trabalho antropológico. Hoje, principalmente inspirados no pensamento do filósofo e antropólogo Ernest Gellner, boa parte dos antropólogos defendem que mores são  construções sociais, tão reais, tão objetivos, tão válidos quanto outros fenômenos culturais como a linguagem.

Independente de qual política seguir, seja integração ou assimilação, respeito a diversidade, garantir o direito à existência humana, compreensão de culturas não-hegemônicas, diálogos entre diferenças são elementos cruciais para garantir o mínimo de estabilidade em sociedades plurais.  Isso é relativismo cultural.

Obras consultadas

Arendt, Hannah. 1951. The Origins of Totalitarianism.

Barry, Brian. 2001. Culture and equality:  an egalitarian critique of multiculturalism.

Benedict, Ruth. 1934. Patterns of Culture.

Gellner, Ernest.  1995 Anything goes: The carnival of cheap relativism which threatens to  swamp the coming fin de millenaire

Gellner, Ernest. 1992. Postmodernism, Reason and Religion.

Kluckhohn, Clyde. 1944. Mirror for Man.

Moser Paul K. , ed. 2000. Moral relativism: a reader.

Popper, Karl. 1945. The Open Society and Its Enemies.

Rosaldo, Renato. Of Headhunters and Soldiers: Separating Cultural and Ethical Relativism

Westermarck, Edvard. Ethical Relativity

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Mais tarde aplico essas distinções entre relativismo cultural e relativismo moral em algum estudo de caso.

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Democratização do legislativo

Algumas propostas de reformas no legislativo para ampliar a democracia no Brasil:

  • Fim de reeleição para senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores. Por serem meros representantes do povo, não há motivos para eternizá-los no poder.
  • Fim dos salários de vereadores.
  • Fim de aposentadoria para cargos eletivos.
  • Concurso público para todos os assessores e funcionários das casas legislativas. Reserva aos parlamentares o direito de veto ou demissão de servidores, mas a nomeação só para quem demonstrar capacidade e igualdade em pleitar o cargo.
  • Assessores parlamentares pagos pelo erário deverão servir coletivamente os legisladores. Se alguém quer ter um assessor privado,  que pague com dinheiro privado, não público.
  • Voto aberto somente – fim de votações secretas. Os eleitores tem o direito de saber como votam seus eleitos.
  • Eleição por voto distrital.
  • Fim dos subsídios aos partidos.
  • Liberdade de lançar candidatura independente sem afiliação partidária.

A ficha-limpa já concretizou, quem sabe essas propostas ainda se tornarão real. Algo mais?

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Tomas Tranströmer: laureado ainda que tardio

Os suecos, com o típico escrúpulo de evitar puxar sardinha para o lado deles, demoraram mas fizeram justiça ao laurear Tomas Tranströmer ao prêmio Nobel de literatura 2011.

Conheci a obra de Tranströmer por recomendação de um amigo e desde então seus versos singelos, enigmáticos, polissêmicos e  profundos que levam à reflexão sem perder sua beleza.

Aqui está uma tradução livre que fiz de um dos meus poemas favoritos, remediando um pouco a falta da tradução da sua obra ao português.

I det fria (no aberto), 3 estrofe

Colentânea "Ecos e traços" 1963-1966

Solen bränner. Flygplanet går på låg höjd
och kastar en skugga i form av ett stort kors som rusar
fram på marken.
En människa sitter på fältet och rotar.
Skuggan kommer.
Under en bråkdels sekund är han mitt i korset.
Jag har sett korset som hänger i svala kyrkvalv.
Det liknar ibland en ögonblicksbild
av något i häftig rörelse.

O sol queima. O avião passa baixo
e projeta uma sombra na forma de uma grande cruz
que corre sobre o campo.
Um homem sentado no chão enraizado
A sombra vem.
Por uma fração de segundo, ele está no meio da cruz.
Já vi a cruz no sacrário da igreja,
parece às vezes em um piscar de olhos
de um movimento violento.

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A nova Classe C e o liberalismo econômico informal

O fator ignorado da ascenção econômica da classe C no Brasil.

Nas últimas décadas o poder de compra da Classe C brasileira cresceu vertiginosamente e novos produtos e serviços apareceram no mercado para atender este segmento.  O comportamento econômico liberal do setor informal é um fator a ser seriamente considerado entre os motivos tradicionalmente apontado para tal mudança.

As razões típicas frequentemente são o plano real, investimento governamental em programas sociais e bom momento macro-econômico para o país. Certamente a  estabilização da moeda e controle inflacionário permitem a poupança e o investimento a médio e longo prazo. Da mesma forma investimentos em seguridade social e a criação de meios de ascenção através de financiamentos como PROUNI e Minha Casa, Minha Vida também aumentam a estabilidade sócio-financeira de vários lares além da capacitação profissional para atender um mercado com carência que beira à fome, de mão-de-obra qualificada. O aumento na exportação de commodities, a maior interação comercial entre as nações do Sul Global aliada a uma estabilidade política que dá confiança ao investidor contribuem para o boom brasileiro. O pais ganhou crédito.

Por mais que ainda temos vários problemas estruturais – entenda-se problemas políticos, sociais, legais – vejo com otimismo os coeficientes de Gini dos últimos anos, indicando uma melhor distribuição de renda.

Os quase 70 milhões de brasileiros que vivem na classe C estão se beneficiando. Viajam de avião em companhias low-carrier para férias em resorts compradas à prestações, gastam dinheiro em produtos Veblen,  pagam seguros de saúde mas ainda enfrentam filas do SUS para tratamentos.

Vejo o setor de hospitalidade como amostra dessas mudanças. Restaurantes que antes eram negócios familiares ou de algum italiano ou gaúcho perdido, agora são profissionalizados, com chefs treinados. O mercadinho familiar perdeu espaço para supermercado de rede.

Todavia, ainda na periferia uma outra economia existe.

Ao redor das grandes cidades brasileiras há bairros populares que anteriormente eram dormitórios ou bolsões de pobreza. Hoje bancos abrem agências em suas avenidas, ao lado de lojas de eletrodomésticos , pastelarias e igrejas neo-pentecostais.

A periferia da classe C distingue-se da favela ou de outros bairros dos mais excluídos como também distingue-se dos bairros tradicionais da classe média e rica. Passou ser um mercado rentável, empresas encontram mão-de-obra semi-especilizada com menor custo (e tempo gasto) de transporte de pessoal. A ausência de crédito fez uma economia onde circula o dinheiro vivo fornecer um bom cash-flow. As escolhas conservadoras dos produtos que a classe C consome faz do comércio ter um mercado previsível, sem excesso de inventórios.

A informalidade, reduzindo tributação e também encargos empregatícios, prevalencem em pequenos e micro-negócios que, sem crédito mas também sem dívidas, florescem nesses bairros.

Enquando uma família de trabalhador de nível superior assalariado, pagava escola particular de renome para seu filho e gastou cinco anos mantendo-o no cursinho para entrar em uma universidade público, batalhava para pagar as prestações do carro financiado, mantinha um bom apartamento central com caro aluguel; a família de classe C trabalhava informal, andava de carro velho, mas totalmente pago, morava em uma casa faltando reboco nos muros, mas praticamente paga,  enviava o filho para a escola pública e passou em seu primeiro vestibular em uma faculdade particular, já se formou.

Elementos de solidariedade orgânica ainda existem na classe C da periferia e substituem o estado, o crédito e a seguridade social.

A informalidade da economia nas periferias da classe C serviu para abrigar um modelo liberal, laissez-faire, laissez-passer. É um dilema como o estado deve tratar esta economia. Regulamentar e incorporar esta economia periférica sob controle estatal seria talvez matar a galinha dos ovos de ouro, mas também modos de garantir sustentabilidade e previdência. Ainda, o estado deveria aceitar este modelo e expandir para outros setores.

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Desculpe os anglicismos, não estava com paciência para me filtrar. 

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Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke (1875–1926), poeta de expressão alemã nascido em Praga, todavia sua vida errante o fez cosmopolita. Sua obra é única e reflete influências de Kierkegaard, do pietismo alemão e da literatura espiritual russa.

Seus contemporâneos do fin-de-siècle foram personagens interessantes. Teve um relacionamento com Lou Andreas-Salomé (1861—1937) uma intelectual russo-alemã cujo círculo social incluia Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche. Por um tempo Rilke foi secretário do escultor August Rodin.

Descobri Rilke lendo Dietrich Bonhoeffer e fiquei desde então cativado pelos seus versos.  Poetas notórios da língua portuguesa traduziram seus poemas, nada menos que Augusto de Campos, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, além de alusões de Rilke em João Cabral de Melo Neto.

“É bom também amar porque amor é difícil. Pois um ser humano amar o outro é talvez a tarefa mais árdua a nós confiada. É a tarefa suprema, o teste final, a prova, a obra pela qual tudo é somente uma mera preparação.” Briefe an einen jungen Dichter. Brief 7. Rom 14 Mai 1904 (1)

Bibliografia em português

As rosas. tradução de Janice Caiafa. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.

Cartas a um jovem poeta e a canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles. 2a ed. São Paulo: Globo, 2007.

As Elegias de Duíno. Tradução de Maria Teresa Dias. Furtado Assírio e Alvim: Lisboa, 1993.

Os cadernos de Malte Laurids Brigge. tradução de Renato Zwick. Coleção L&PM, 2009

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(1)  Essa curta tradução é minha, oriunda de http://www.rilke.de/briefe/140504.htm

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